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sábado, 8 de dezembro de 2018

[REPOST] - MULHERES NA DIREÇÃO | TOMBOY (2011)


Descrição da imagem: a atriz Zoé Herán como o personagem Mikael, de cabelos curtos, olhos claros, expressão séria e veste uma blusa branca e um casaco azul caindo pelos ombros. Atrás está uma parede com papel florido.



Obs: Texto escrito originalmente em setembro de 2017




Filmes que retratam a infância ou fazem um recorte sobre essa fase da vida humana muitas vezes são extraordinariamente profundos e exaltam a importância que existe na perspectiva do olhar da própria criança sobre o mundo à sua volta e principalmente sobre quem ela é. Tomboy é um desses filmes, mas que traz um aspecto a mais: retrata de forma bastante sutil e interessante a identidade de gênero na infância.



Dirigido pela francesa Céline Sciamma, o filme conta a história de Laure, uma menina de 10 anos que se identifica mais como um garoto. Quando ela e sua família se mudam para um novo bairro, ela começa a se apresentar como Mikael para seus novos colegas de vizinhança.



A forma como o roteiro e a direção lidam com questões de identidade de gênero são muito bem executadas, nunca estereotipando sua personagem uma vez que o foco da trama é desenvolver as descobertas de Mikael sobre sua personalidade e individualidade bem como a maneira como se enxerga para estar bem consigo mesma. Outro ponto muito relevante é a construção das relações afetivas entre a protagonista e os outros personagens. A relação entre Mikael e sua irmãzinha, Jeanne, é muito meiga e delicada e todas as cenas em que acontecem suas brincadeiras são de uma natureza encantadora.  O carinho que Jeanne demonstra por Mikael mostra de fato a cumplicidade que existe entre irmãos e ressalto aqui como crianças são muito mais aptas a entender a importância de valorizar a verdadeira identidade de cada um. Digo isso porque é muito bonita a forma como Jeanne compreende Mikael e sua escolha de ser como é, da maneira mais natural possível, como deveria ser na nossa sociedade. (E infelizmente vemos que há um preconceito enorme, principalmente em nosso país). As pessoas precisam entender a importância que existe no respeito pela identidade de cada um.

Descrição da imagem: Jeanne está em pé cortando o cabelo de Mikael com uma tesoura.


De início, Mikael tem a facilidade de se enturmar com os garotos da vizinhança e com Lisa, a única garota do grupo, que parece ter uma paixãozinha por Mikael e o interessante é que a diretora não procura sexualizar essa relação entre as duas personagens, afinal, como eu disse antes, o foco do filme é justamente a descoberta de identidade. As cenas entre Mikael e Lisa são também muito delicadas e meigas e há uma específica, onde a amiga passa maquiagem no rosto de Mikael e diz: “Você seria uma menina linda”. De fato, Mikael tem seu rosto e traços bastante femininos, mas ela não se sente bem como uma garota e essa percepção interna é muito importante para aos poucos Mikael ir se afirmando como realmente é. Embora Mikael passe a se sentir à vontade com suas novas amizades, há um empecilho que começa a gerar um certo incômodo dentro de si: o seu próprio corpo. E mais uma vez precisamos dar o crédito à diretora pela forma como ela filma e retrata sutilmente os momentos em que sua protagonista passa a indagar em sua cabeça sobre sua própria anatomia.



A atriz Zoé Héran interpreta Mikael com uma maturidade tão deslumbrante que impressiona o expectador. A sua performance e sua compreensão para com o desenvolvimento  de sua personagem  foram essenciais para a construção de toda a obra. Fico muito feliz por ela ter levado um prêmio por esse filme (ela ganhou como Melhor Atriz no Buenos Aires International Festival of Independent Cinema). Sua sensação de conforto assim como seus questionamentos e como ela projeta através de suas ações a sua autoafirmação numa cena tão sutil e ao mesmo tempo tão grandiosa (uma das cenas finais do filme), faz com que Zoé Héran esteja na lista das melhores performances infanto-juvenis do cinema.

Descrição da imagem: Lisa, de cabelos soltos e vestindo blusa lilás, está de frente á Mikael e cobre os olhos deste com suas mãos. Os dois estão próximos a um lago e algumas árvores. 




A diretora Céline Sciamma também faz um trabalho magnífico com esse filme e tem uma sensibilidade em como filmar uma personagem com muitas camadas e todas as relações entre ela e seus coadjuvantes, tornando o filme leve e muito acessível até para aqueles que não são acostumados com o estilo de cinema independente da Europa. Além disso, a forma como ela traz à tona um tema contemporâneo e muito importante, que hoje em dia gera inúmeras discussões, faz com que esse filme se projete como uma obra essencial para o cinema LGBTQ+ e para todos, afinal, é uma obra super atual feita com muito coração e que reflete o quanto é importante o respeito à identidade e individualidade de cada um.



O retrato honesto e orgânico da infância também é outro aspecto que precisa ser reconhecido neste filme e Sciamma procura buscar elementos poéticos e também técnicos que pontuam a realização do longa dentro dessa temática. E todos esses elementos, desde uma fotografia sempre clara e ensolarada até planos abertos e outros mais intimistas, fazem de Tomboy uma obra que dialoga com a atmosfera em que seus personagens estão inseridos tornado a história verdadeira.  A habilidade que a diretora tratou de tal assunto é inspiradora assim como o mote principal sobre a autodescoberta de Mikael e todas essas qualidades transformam-no em um filme mais que especial.




Trailer legendado




FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani, Mathieu Demy, Rayan Boubekri, Yohan Vero, Noah Vero, Cheyenne Lainé, Christel Baras, Valérie Roucher

Produção: Bénédicte Couvreur
Fotografia: Crystel Fournier
Trilha sonora: Jean-Baptiste de Laubier, Jerôme Echenoz
Edição: Julien Lacheray
Design de produção: Thomas Grézaud, 
País: França
Ano: 2011



Acesse nossos outros textos da coluna: Minissérie Alias Grace e filme Garota Sombria Caminha Pela Noite




terça-feira, 16 de outubro de 2018

CRÍTICA DE FILME | NASCE UMA ESTRELA (2018)

Descrição da imagem: a atriz e cantora Lady Gaga como sua personagem Ally em um palco de show com luzes avermelhadas, cantando com um microfone. Mais ao fundo está o ator Bradley Cooper como o personagem Jack, desfocado e segurando um violão.


Existem histórias que são a verdadeira alma de Hollywood e Nasce uma Estrela é sem dúvida uma delas. Esta é a quarta adaptação para o cinema, onde anteriormente nomes como Judy Garland e Barbra Streisand protagonizaram essa mesma história.  Ao trazer essa clássica narrativa para o mundo da fama atual, a nova versão precisava de uma estrela à altura das anteriores e certamente Lady Gaga é a maior definição atual da estrela pop com um imenso talento em suas veias. O longa é moldado através de notas, acordes e é claro dos talentos dela e de  Bradley Cooper assim como da maravilhosa química que os dois possuem em tela.  Em sua estréia como diretor, Cooper  traz nessa adaptação uma abordagem emotiva e entusiasmada sobre a paixão pela música que permeia o drama de um relacionamento amoroso e o mundo devastador e tóxico do show business.

Jackson (Cooper) é um popular astro e compositor da música country/rock que está aos poucos se entregando ao vício do alcoolismo. Em uma noite após um show, ele decide ir a um pequeno bar onde acontecem apresentações de cantoras drags e onde Ally (Lady Gaga) se apresenta todas as sextas com permissão de suas amigas donas do local. Ao ouvir Ally cantar La Vie en Rose espetacularmente, Jack fica encantando com sua voz e a partir daí os dois se conectam de uma forma mágica, se apaixonam e se tornam parceiros no mundo da música. O filme nos toca de uma maneira especial, afinal, conseguimos nos conectar e imergir para aquela história não só através das ótimas canções, como Shallow (em uma cena transcendentalmente emocionante) e é claro em I’ll Never Love Again, mas também através do amor entre Ally e Jack, que percorre momentos de alegria e momentos de angústia.




Descrição da imagem: Bradley Cooper (sentado segurando um violão) e Lady Gaga deitada escrevendo uma composição de música em um local aberto próximo a um palco de show, com grandes árvores palmeiras ao redor.


Lady Gaga, que certamente deve ser indicada ao Oscar no próximo ano, está simplesmente magnífica. Quem assistiu a série American Horror Story: Hotel, já tinha visto seu talento como atriz. Mas nesse filme, onde ela constrói uma personagem orgânica e com muitas camadas, ela transporta ao espectador toda a emoção que sua performance carrega. A história de Ally, que poderia ser um simples conto sobre a descoberta de um talento e sua ascensão no mundo da fama, é mais sobre o que o artista está tentando transmitir num mundo tão saturado de pressões que é o show business.  Bradley Cooper também está impecável e aqui ele possui uma das melhores atuações de sua carreira (com grandes chances de também ser indicado ao Oscar). Sua voz ao cantar é o fator surpresa do filme, e a sintonia que ele desenvolve ao lado de Gaga é algo lindo demais de assistir 💖 . E seu trabalho na direção é outro aspecto positivo do filme, desde alguns planos mais abertos até aqueles onde ele procura focar em sua estrela brilhando em cena.  Nas cenas das músicas Shallow e I’ll Never Love Again, não tem como não se emocionar com a performance de Gaga.

Os aspectos técnicos também brilham durante os 136 minutos de projeção, em especial a direção de fotografia assinada por Matthew Libatique, que traz uma fotografia granulada misturada às luzes vertiginosas, principalmente na primeira metade do filme, assim como abraça em alguns momentos o brilho e o glamour de Ally e em outros, a melancolia da música de Jack.


Com músicas inspiradas e um romance envolvente, Nasce uma Estrela é um filme que assim como uma boa nota musical ou um acorde preciso, é uma obra que impressiona e ecoa em nossas mentes.  


Trailer legendado oficial:




FICHA TÉCNICA:


Título original: A Star is Born
Gênero: Drama, Romance
Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters
Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chapelle, Barry Shabaka Henley, Michael D. Roberts, Rebecca Field, Ron Rifkin, Derek Kevin Jones, Alec Baldwin, Willam Belli, Greg Grunberg, Josh Wells, Brandi Carlile, Marlon Williams, Halsey
Produção: Bradley Cooper, Bill Gerber, Lynette Howell Taylor, Jon Peters, Todd Phillips
Fotografia: Matthew Libatique

Edição: Jay Cassidy
Figurino: Erin Benach
Design de produção: Karen Murphy
Direção de arte: Matthew Horan
País: EUA
Ano: 2018



terça-feira, 18 de setembro de 2018

CRÍTICA DO FILME | HOT SUMMER NIGHTS (2018)

Descrição da imagem: banner do filme Hot Summer Nights, em letras rosa neon e com o rosto de Timothée Chalamet olhando para o lado e uma imagem de uma roda gigante próxima ao mar. 



Em praticamente todo ano são lançados filmes com a temática “coming of age”, ou seja, filmes em que seus protagonistas passam por uma fase de amadurecimento, especialmente na adolescência.  Alguns se destacam pela ótima qualidade, outros pela falta dela e outros tantos por conter características mais cool do cinema indie.  Hot Summer Nights  (ainda sem título em português) se enquadra na terceira categoria. É um filme que aspira ser um pouco mais que uma estória descolada ambientada nos anos 90. Basicamente é uma simples história de um adolescente que vai passar as férias de verão em outra cidade e acaba se envolvendo com traficantes de drogas ao mesmo tempo em que se apaixona pela primeira vez.  Festas de verão, lanchonetes e cinemas drive-in compõem a maior parte do pano de fundo, mas nada parece autêntico, já que outros tantos filmes (e séries) atuais costumam utilizar essa nostalgia para agradar o público. Pessoalmente, adoro celebrar a nostalgia que hoje virou moda principalmente por causa de Stranger Things (que amo!). Mas mesmo achando tudo isso bacana e divertido, com um tempo, os filmes e séries lançadas hoje que se passam nas décadas de 80 e 90, acabam se tornando repetitivos. E é justamente isso que ocorre com Hot Summer Nights. Mesmo gostando do estilo dele, do visual e claro, da trilha sonora, a narrativa em si não se aprofunda muito para nos entregar uma estória sólida e orgânica. O maior trunfo do filme é o excelente Timothée Chalamet (indicado ao Oscar esse ano pelo também excelente e lindo Me Chame Pelo Seu Nome).  Ele interpreta o jovem deslocado Daniel , chamado de Danny pelo seu novo amigo e traficante de maconha, Hunter (Alex Roe, de A 5ª Onda).  

Uma das decisões mais estranhas de todo o filme é a sua narrativa. A narração em “off” ou voiceover pode ser um sucesso ou um fracasso num filme, e é de certa forma, inconsistente quando seu narrador nunca é apresentado ao longo da história e somente nos segundos finais do longa. Acredito que o diretor (o estreante Elijah Bynum) inseriu o narrador como uma forma estranha de quebra da quarta parede, onde ele fala sobre os eventos e sobre os personagens como se fossem contos lendários de aventuras.  Mas, por justamente este narrador não ser de fato um personagem que se envolve com os demais, este tipo de artifício narrativo não se encaixou perfeitamente na história. Talvez, esta escolha do diretor tenha prejudicado o desenvolvimento de seu protagonista e dos outros coadjuvantes.

Descrição da imagem: Timothée Chalamet e Alex Roe sentandos lado a lado numa mesa de lanchonete.

Mas mesmo assim, a trama envolvendo Danny, Hunter e a irmã deste, McKayla (Maika Monroe, de Corrente do Mal) ainda consegue desenvolver alguns mistérios e subplots  que nos fazem sentir um certo suspense sobre a possibilidade de algo dar errado no relacionamento dos três. Isto porque Hunter deixa claro que ninguém deve se aproximar de sua irmã McKayla, deixando Danny numa situação complicada já que ele está perdidamente apaixonado por ela.  O roteiro consegue construir um pouco o subplot de Hunter, levando-o  dos clichês de “bad boy” à uma pessoa que está procurando ser amado. Sua relação distante com a irmã e um pai problemático o faz querer a atenção da filha do policial local, a jovem Amy (Maia Mitchell, da série The Fosters) e uma cena dele com o pai da garota nos faz entender suas motivações e este  momento entre ambos acaba sendo um momento de compaixão para eles.  

Gostaria que Danny, o protagonista, tivesse uma cena mais emotiva e profunda, já que Timothée Chalamet tem o talento incrível de passar para nós suas emoções apenas com o olhar (como na linda cena final de Me Chame Pelo Seu Nome). Entretanto, ele fez aqui em Hot Summer Nights, o melhor que pôde dentro das possibilidades do roteiro e seu Danny poderia ter sido um personagem com mais camadas em um roteiro mais bem elaborado.

Descrição da imagem: Maika Monroe e Timothée Chalamet frente a fente so olhando e sorrindo.

Infelizmente as duas únicas mulheres do filme, Amy e McKayla,  estão ali puramente como objetos de desejo para os personagens masculinos. Para Hunter, Amy representa uma vida melhor, uma que iria livrá-lo de seus crimes anteriores. Já McKayla é a garota que todo mundo quer, como o narrador nos diz ao longo do filme. E mesmo seu relacionamento secreto com Danny acaba não tendo o desenvolvimento satisfatório para a narrativa. A única parte remotamente interessante de seu caso são as mentiras que Danny se prende entre Hunter e McKayla. Mas os resultados finais das escolhas do personagem levam a uma conclusão insatisfatória para os três.

A direção é competente em alguns aspectos, mas falha em outros. O enredo que parece sempre fazer parte de vários videoclipes é interessante nos momentos iniciais, utilizando muito neon e uma pitada de slow motion demostrando o efeito da maconha em Danny numa festa ao som da música Tarzan Boy, hit dançante dos anos 80. Outra boa cena musical é o momento onde Danny beija McKayla num parque e de repente sobe Space Oddity do David Bowie, o real motivo da cena se desatacar (afinal, essa música é um hino atemporal 💜).  A direção como um todo está mais interessada no estilo do que na substância da obra, característica presente em outros tantos filmes. Mas mesmo assim, Elijah pode vir a ser um diretor mais maduro futuramente, afinal, assim como aconteceu com outros cineastas em início de carreira que ao longo dos anos foram se aperfeiçoando, espero que ele também se destaque no cinema.


Trailer oficial:



FICHA TÉCNICA:

Gênero: Comédia, Crime, Drama
Direção: Eijah Bynum

Roteiro: Elijah Bynum
Elenco: Timothée Chalamet, Alex Roe, Maika Monroe, Maia Mitchell, Emory Cohen, Thomas Jane, William Fichtner, Reece Ennis, Jeanine Serralles, Shane Epstein Petrullo, Jack Kesy
Produção: Dan Friedkin, Ryan Friedkin, Bradley Thomas
Fotografia: Javier Julia
Trilha sonora: Will Bates
Edição:  Jeff Castelluccio, Tom Constantino, Dan Zimmerman
Figurino: Carol Cutshall
Design de produção: Kay Lee
Direção de arte: Evan Maddalena
País: EUA
Ano: 2018


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

CRÍTICA DO FILME | LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (2016)



“City of Stars, are you shining just for me?”



Os musicais dominavam a Era de Ouro em Hollywood, época em que astros e estrelas como Fred Astaire e Ginger Rogers dançavam e encantavam um público sedento pela magia que o cinema proporcionava a seus olhos sempre vidrados nas películas projetadas na telona. Muitas obras das décadas de 20 e 30 serviam como escapismo para os problemas que a sociedade norte-americana enfrentava e nada melhor do que sonhar e ter esperança assistindo estórias super alegres e românticas para esquecer o impacto do pós-Guerra ou da quebra da Bolsa de Valores em 1929. Contudo, os musicais não se limitavam a apenas esse propósito, uma vez que muitos de seus realizadores estavam contribuindo para o desenvolvimento de um gênero especial para o mundo cinematográfico. O casamento entre música e cinema é uma das mais ricas combinações artísticas e foi justamente com os musicais que a indústria tomou fôlego para produzir obras memoráveis como Cantando na Chuva de 1952, obra essa que faz uma verdadeira ode ao cinema como um todo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Mulheres na Direção #1 | Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)


Para abrir a coluna, escolhi um filme interessante e nada convencional para os padrões do cinema vampiresco que muitos estão acostumados a assistir. Garota Sombria Caminha Pela Noite é escrito e dirigido por Ana Lily Amirpour, cineasta britânica radicada no EUA e com ascendência iraniana e que faz filmes desde os 12 anos. Esse foi seu primeiro longa-metragem e já mostrou o suficiente para atesta-la como uma diretora promissora e que merece um olhar especial em seus futuros trabalhos. Lançado em 2014, Garota Sombria foi destaque no Festival de Sundance daquele ano e ganhou diversos prêmios em outros festivais mundo afora.
Caracterizado como um western de vampiro, o filme vai além, trazendo simbolismos influenciados por cineastas como Luis Buñuel e Jim Jarmusch (este dirigiu o ótimo Amantes Eternos, também com vampiros) além de pequenos toques do terror, mas sem o objetivo de te assustar. A história do filme é simples, porém são seus elementos estéticos que fornecem uma maior profundidade à mensagem e ao tipo de arte que a diretora propôs a mostrar em seus 100 minutos de tela. Na quase deserta e melancólica Bad City (uma cidade fictícia do Irâ), acompanhamos Arash, um jovem que vive com seu pai viciado em drogas e trabalha como jardineiro e “faz-tudo” na casa de uma família rica. Após uma festa à fantasia, ele se perde na cidade e encontra uma misteriosa garota que vive sozinha e é aí que inicia uma espécie de romance entre eles. Sem ser clichê no desenvolvimento dessa relação entre os dois, o filme investe em outros aspectos que se tornam mais importantes na trama. O fato dela ser uma vampira (algo que Arash não desconfia de imediato) não serve para uma paixão proibida, mas sim para desenvolver a personagem como dona de si mesma e uma vigilante em Bad City, afinal, para saciar a sede, suas presas são geralmente traficantes e abusadores de mulheres. Ana Lily Amirpour sutilmente constrói um importante discurso feminista em forma de metáfora. No início do filme, já de cara conhecemos um traficante que trata mal prostitutas, o qual entendemos que antes dele ser uma presa da garota vampira, já vinha sendo observado pela mesma há algum tempo. O mesmo quase pode ser aplicado para um garotinho que sempre está à espreita para roubar os poucos habitantes daquela cidade quase fantasma.

Por falar na cidade, ela é um poderoso personagem do filme. A diretora filmou tudo numa cidade californiana, mas deixando com cara de um Irã desolado.  A fotografia em preto e branco foi uma escolha especial para deixar aquele microcosmo mais desolado, porém belo. Muitas tomadas e enquadramentos do filme são enaltecidos justamente pela bela fotografia em p&b e trazem momentos bem contemplativos (alguns em excesso). Em grande parte do filme, uma usina da cidade é mostrada e seus ruídos recorrentes dia e noite são parte essencial para a estranheza do cenário que é Bad City.
Apesar de ter sido filmado nos EUA, o filme é todo falado em persa, algo que dá uma singela característica poética ao roteiro com poucos diálogos. A trilha sonora é outro fator que se destaca. Repleta de várias faixas com rock persa, há uma bela cena específica onde toca ‘Death’, música da banda britânica White Lies, que sua letra condiz com o momento retratado enquanto a música está rolando no próprio quarto da garota vampira. Yes, this fear’s got a hold on me…

No elenco, são as atrizes que mais se destacam. Sheila Vand que interpreta a personagem título, possui um olhar que mescla entre o desamparo e a força, tornando-a uma vampira estranhamente interessante. Por falar em olhares, o gato de estimação que aparece em algumas cenas possui o olhar mais detalhista de todo o filme, ganhando um close-up tão belo e enigmático, que se fosse emoldurado daria um lindo quadro. A atriz Mozhan Marnò (que fez a jornalista Ayla Sayyad em House of Cards) interpreta a prostituta que ganha a proteção da vampira, e ela consegue demonstrar seus medos e suas frustrações assim como seus desejos internos de mudar de vida. Já Arash Marandi, que possui mais tempo em tela, não entregou uma performance tão interessante. Seu personagem, Arash, é mostrado no início do filme como um rapaz à la James Dean, usando jaqueta e topete no cabelo. Porém, faltou um pouco mais de profundidade em seu desenvolvimento, especialmente em sua relação com o pai.
Garota Sombria Caminha Pela Noite não é um filme para todos, mas para quem está sempre com a mente aberta a fim de conhecer obras diferentes como essa, certamente é um filme para ser visto e apreciado.

Um pouco da trilha do filme:

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama, Fantasia, Terror
Direção: Ana Lily Amirpour
Roteiro: Ana Lily Amirpour
Elenco: Sheila Vand, Arash Marandi, Mozhan Marnò, Marshall Manesh, Dominic Rains, Rome Shandaloo, Milad Eghbali
Produção: Justin Begnaud, Sina Sayyah, Elijah Wood
Fotografia: Lyle Vincent
Direção de arte: Sam Kramer
Figurino: Natalie O’Brien
Título Original: A Girl Walks Home Alone Tonight
País: EUA
Ano: 2014



Revisitando Filmes #4 | Charada (1963)


Texto publicado originalmente em 16 de dezembro de 2016
Desde que criei essa coluna, eu já tinha o interesse de rever algum filme estrelado pela Audrey Hepburn e escrever um texto sobre. Para mim Audrey é uma das maiores atrizes do cinema e merece ter sua brilhante carreira conhecida por todos. A maioria das pessoas a conhecem apenas por Bonequinha de Luxo (aliás um dos meus filmes favoritos), porém justamente por esse motivo decidi rever uma obra não tão badalada dentro de sua filmografia para escrever essa quarta edição da coluna.
A primeira vez que assisti Charada foi há pouco mais de 4 anos e já tinha achado um filme tão atemporal, interessante e divertido. Vendo novamente, consegui me encantar mais ainda por ele, mesmo já sabendo de suas reviravoltas, que continuam trazendo sempre algo a mais a cada vez que você assiste ao filme. Mas o que mais torna Charada um filme tão notável é sua dupla protagonista: Audrey Hepburn e Cary Grant. Aliás, este foi o único filme em que os dois contracenaram juntos, isso porque Cary Grant sempre se preocupou com a diferença de idade que poderia aparentar entre os dois. Antes desse filme, eles tiveram a oportunidade de trabalharem juntos em Sabrina, mas Grant decidiu deixar o projeto, já que Audrey conseguia interpretar um papel mais jovem, entretanto, quem substituiu ele foi Humprhey Bogart, que era muito mais velho que Grant. Mas felizmente, ao ler o roteiro de Charada, ele topou filmar e conseguiu uma química maravilhosa com Audrey em cena. Há relatos de que existia um grande respeito e carinho entre os dois e com certeza isso só fez engrandecer o brilho dessa dupla em seus respectivos personagens.
Audrey interpreta Regina Lampert, carinhosamente chamada de Reggie, uma mulher que ao voltar das férias na Suíça e decidida a pedir o divórcio ao marido, descobre que ficou viúva (o marido foi assassinado e jogado de um trem) e que deveria herdar uma quantia de 250.000 dólares, o dinheiro que move toda a trama do filme. Após o funeral, ela descobre que seu falecido marido estava envolvido em transações criminosas e que este dinheiro deveria ser devolvido ao governo americano. Contudo, um grupo de 3 perigosos homens que conheciam o morto desde a época da 2ª Guerra Mundial, começa a caçar esse dinheiro e pôr em risco a vida de Reggie. Para conseguir proteção, ela passa a confiar (e a se apaixonar aos poucos) pelo charmoso Peter Joshua (Cary Grant), um misterioso homem que entrou em sua vida desde seu último dia de férias na Suíça.

Comumente, esse filme é chamado de “o filme de Hitchcock que Hitchcock nunca fez” e, embora concorde parcialmente com essa afirmação, eu não acho que seja inteiramente verdade. Por um lado, há muito mais humor em Charada do que na maioria dos filmes de Hitchcock, por outro lado, ele não possui todos os elementos “hitchcockianos”. Mas o enredo misterioso e cheio de reviravoltas, a abertura enigmática, os ângulos de câmera inteligentes e o elenco especial são sem dúvida elementos a favor de uma comparação. E eu diria que Charada é quase tão genial com a combinação de elenco, roteiro, fotografia, música e estilo visual como qualquer filme de Hitchcock. É preciso elogiar o excelente trabalho do diretor Stanley Donnen e é claro o roteiro de Peter Stone, que foram o alicerce para a construção de um thiller envolvente e é claro divertido.
Uma das coisas que realmente vende um filme para mim é a música. Henry Mancini fez um trabalho fantástico como de costume (ele foi e sempre será um dos maiores compositores de trilhas) capturando todas as emoções e humor do filme, de melancolia e saudade, ao romance, diversão e perigo. Sua pontuação precisa e minuciosa é tudo o que uma trilha sonora cinematográfica deve ser. Pode-se dizer que Mancini ditou o tom do filme, pelo menos em certa medida, da mesma maneira que Bernand Hermann fez com tantos filmes de Alfred Hitchcock.
Agora falando no elenco do filme, não há dúvidas de que Audrey Hepburn foi a atriz certa para interpretar Reggie. Seu carisma combinado com sua vivacidade, deu à personagem um protagonismo incrível. Ela que no início aparenta ser uma personagem mimada, vai ganhando a simpatia do expectador e se mostrando ser dona de sua própria narrativa, mesmo tendo uma espécie de protetor ao seu lado. Bem, a trama consegue ir além disso, fazendo de Reggie uma excelente investigadora e como sua própria personagem diz: “As mulheres são as melhores espiãs do mundo. ” Cary Grant também foi o ator certo para seu personagem. Na pele de Peter Joshua ele envolve o expectador numa atmosfera misteriosa. Isso porque o personagem é essencial no desenrolar das tantas reviravoltas da trama. O elenco coadjuvante também se destaca, desde Walter Matthau (que 30 anos depois foi o inigualável Sr. Wilson em ‘Dennis, o Pimentinha’, um dos filmes que com certeza marcou a infância de muita gente) até James Coburn, que com sua presença e altura ameaçadora interpreta um dos criminosos à procura do dinheiro.

Pra mim foi maravilhoso rever Charada logo no início das minhas férias da faculdade. Não seria uma boa ideia se eu tivesse iniciado as férias com um filme pesado demais. Todo o cansaço que a rotina de estudos proporciona, faz com que você comece seu período de descanso escolhendo bons filmes divertidos, e Charada certamente possui esse atributo. Afinal, nada melhor do que um clássico com elenco e trama tão envolventes e divertidos para espairecer sua cabeça e proporcionar 113 minutos de encantamento pelo que o cinema tem de melhor.
Então é isso, pessoal. Até a próxima edição do ‘Revisitando Filmes’ e em breve estarei com uma nova coluna dedicada às mulheres diretoras, porque o cinema (e a sociedade) ainda precisam valorizar e prestigiar mais o trabalho das mulheres dentro da indústria cinematográfica.

Música tema do filme, composta por Henry Mancini e sua orquestra:

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama, Mistério, Thriller
Direção: Stanley Donnen
Roteiro: Peter Stone
Elenco: Audrey Hepburn, Cary Grant, Walter Matthau, James Coburn, George Kennedy, Dominique Minot, Ned Glass, Jacques Marin, Paul Bonifas, Thomas Chelimsky
Produção: Stanley Donnen
Fotografia: Charles Lang
Trilha sonora: Henry Mancini
Figurino: Hubert de Givenchy
Título Original: Charade
País: EUA
Ano: 1963



Crítica de Filme | Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)


Parece que foi ontem que Harry Potter e as Relíquias da Morte –Parte 2 estava estreando nos cinemas e assim como milhões de fãs pelo mundo, eu também estava emocionada com o fim de uma saga tão especial para uma geração que cresceu lendo e assistindo a jornada de personagens tão maravilhosos criados pela excepcional J.K.Rowling (ou tia Jo, como nós fãs, a chamamos carinhosamente).  E eis que 5 anos depois, lá estou eu novamente numa sala de cinema conferindo uma nova história advinda desse mundo mágico e me sentindo a mesma criança que desde 2001 (ano de lançamento de Pedra Filosofal), se enche de encantamento e fica com os olhos brilhando acompanhando cada momento projetado na telona.
Ninguém tem dúvidas de que a série Harry Potter é uma das mais populares e influentes franquias do cinema. Ao longo de oito filmes, recebeu adoração de críticos e público, bem como dos números em bilheterias e se tornou durante 10 anos o carro-chefe das produções da Warner. Muitos podem pensar que Animais Fantásticos e Onde Habitam foi um filme criado apenas para dar mais dinheiro para os estúdios, entretanto, o filme vai muito além. É claro que a Warner resolveu lançar 5 novos filmes para arrecadar milhões, mas apesar disso e ao contrário de muitos blockbusters configurados como prelúdios e/ou continuações, este filme não é um prelúdio das histórias de Potter e sim uma novíssima história ambientada no mesmo universo, com personagens novos e donos de seus próprios arcos dramáticos. E esse sucesso narrativo só foi possível, é claro, pelo mérito da própria J.K.Rowling, que escreveu o roteiro do filme. Somente ela mesma poderia trazer uma nova história encantadora para as telonas. Um pensamento errôneo comum entre muita gente era que Animais Fantásticos seria uma adaptação do livro homônimo lançado em 2001. Mas quem pensou isso se enganou completamente, já que o livro não traz nenhuma história e sim uma espécie de enciclopédia do mundo bruxo sobre os animais mágicos que existem no mundo. Livro esse, que é citado nas histórias de Harry Potter como um dos livros didáticos usados pelos alunos de Hogwarts.

Ambientando setenta anos antes dos grandes acontecimentos de Harry Potter, Animais Fantásticos e Onde Habitam segue Newt Scamander (interpretado por Eddie Redmayne), um magizoologista (uma espécie de biólogo do mundo bruxo), ex-aluno de Hogwarts e que possui uma mala cheia de criaturas mágicas catalogadas por ele em suas viagens pelo mundo.  Ao chegar a Nova York, Newt encontra alguns novos rostos amigáveis e acaba se envolvendo na descoberta de uma força mágica perversa que aflige a cidade. Bem, não darei mais detalhes da trama  para não contar spoilers que possam estragar a experiência de quem ainda irá assistir ao filme.
Um dos pontos que prefiro falar aqui é justamente a capacidade que o filme possui em combinar a nostalgia e uma nova roupagem para o universo criado por Rowling. Ouvir feitiços já conhecidos como petrificus totalus e alohomora nos dá aquela sensação gostosa de reviver um passeio divertido pelo mundo bruxo, além de ouvir menções a personagens como Dumbledore e a família Lestrange.  Mas a nova roupagem que citei, é o fato de que a jornada de Newt não depende apenas das referências e sim de um arco próprio e independente do personagem. Rowling trouxe a oportunidade de expandir seu universo e provar que ele é riquíssimo e complexo e acima de tudo movido por personagens carismáticos e profundos.
E não é apenas Newt que possui uma história interessante, todos os outros personagens também são protagonistas de seus próprios arcos e dilemas.  Jacob Kowalski (Dan Fogler), um não-maj (o equivalente a trouxa nos EUA; a pessoa que não é bruxo) que logo se torna amigo de Newt, é um personagem que protagoniza a grande maioria das cenas de alívio cômico, contudo, ele é muito mais que isso, carregando um drama pessoal que nos cativa imediatamente, além de nos emocionar numa específica cena durante uma chuva ao final do filme. As irmãs Goldstein, Tina e Queenie (interpretadas por Katherine Waterston e Alison Sudol), completam o quarteto principal e também são duas grandes heroínas para o desenvolvimento do filme. Tina, uma ex-auror da MACUSA (o Ministério da Magia norte-americano), é repleta de coragem, mas também assim como todos nós, possui conflitos que trazem uma identificação aos expectadores. Queenie, uma alegre legilimens (que tem o dom de ler mentes), é uma personagem carregada de empatia e é impossível não amá-la também. Além deste núcleo, outros personagens ganham destaque como Seraphina Picquery (Carmem Ejogo), presidente da MACUSA, Percival Graves (Colin Farrel), o auror da MACUSA que mais se destaca na trama e Creedence Barebone (Ezra Miller), um garoto reprimido que sofre abusos violentos da sua mãe adotiva, Mary Lou Barebone (Samantha Morton). O único núcleo de personagens que não chega a ser aprofundado é a família de Henry Shaw (Jon Voight), o dono de um influente jornal da cidade e cujo filho mais velho é um candidato a senador. Ambos preferem não dar atenção aos mistérios que estão acontecendo na cidade, um fato que apenas o filho mais novo parece estar preocupado.

Um aspecto que fez destaque na franquia Harry Potter foi o desempenho impressionante de seu núcleo jovem ao longo dos anos e de praticamente todo o elenco de atores veteranos. Animais Fantásticos felizmente oferece um grupo igualmente forte de atores. Eddie Redmayne parece ter nascido para desempenhar o papel de Newt, tendo um charme estranho que faz com que o personagem ganhe vida, sem contar a maravilhosa emoção que ele passa nas cenas ao lado de seus animais, em que seus olhos brilham de amor por todas as criaturas. Roubando muitas cenas ao lado dele, está o já citado Dan Fogler na pele do Jacob. A dupla tem uma grande química juntos, sendo um dos grandes destaques de todo o elenco.
Outro grande destaque do longa é o roteiro escrito pela própria Rowling, onde ela traz diálogos ágeis que não precisam ser autoexplicativos para nos situar na trama. Trama essa que, assim como possui momentos leves e engraçados é também carregada de uma subtrama pesadíssima, uma marca que caracteriza Rowling com uma excelente escritora. Em seus livros e agora no seu primeiro roteiro cinematográfico, ela costuma trazer à tona temas relevantes (e atuais) que aprofundam suas histórias. Abuso psicológico e físico, intolerância, preconceito e guerras que estão na iminência de se iniciarem sempre permeiam suas histórias e aqui em Animais Fantásticos não é diferente. E além do peso que esses temas possuem, Rowling traz uma bela mensagem ecológica na relação entre Newt e os animais e é claro a amizade entre os heróis. Se nos filmes de Harry Potter tínhamos o nosso amado trio de ouro, aqui temos um quarteto especial e fantástico (muito mais fantástico que aquele quarteto dos filmes da Fox).

O diretor David Yates, que dirigiu os últimos quatro filmes na série Potter, traz a sua mão segura na direção, capturando cada grandiosa ação bem como cada momento delicado do filme. Os avanços em CGI é outro ponto de destaque nos aspectos técnicos, trazendo efeitos visuais impressionantes de encher nossos olhos, desde os belíssimos animais (que parecem tão perfeitos e reais) à cenários lindos como aquele que vemos dentro da mala do Newt. (Quem aí também queria um Pelúcio e um Picket?!). E o que dizer do excelente trabalho de ambientação para época em que o filme se passa? A figurinista Colleen Atwood (que já ganhou Oscar por Chicago e Memórias de uma Gueixa), trouxe figurinos muito bem detalhados e trabalhados para o ano de 1926, priorizando cores frias e acinzentadas, dando verossimilhança ao clima sombrio que o filme possui em muitos momentos bem como a uma sempre nublada Nova York. Além disso, o trabalho de design de produção de Stuart Craig (que trabalhou em todos os filmes de Harry Potter) e de James Hambidge capturam de forma eficaz os prédios e ambientes do fim dos anos 1920. Para fechar os aspectos técnicos, não poderia deixar de mencionar a trilha sonora composta por James Newton Howard, que mesmo ao usar elementos da clássica trilha de John Williams, conseguiu criar uma personalidade própria ao filme. Assim como Hedwig’s Theme nos emocionou durante 10 anos (e ainda emociona), aqui em Animais Fantásticos conseguimos nos emocionar com composições como A Close Friend e Newt Says Goodbye to Tina.

Animais Fantásticos e Onde Habitam é felizmente um retorno bem-vindo ao mundo mágico, sendo divertido novamente e nos emocionando com a jornada de novos personagens carismáticos. O filme com certeza é um deleite para todo fã do universo de J.K.Rowling, mas também agrada aqueles que talvez não acompanharam a jornada de Harry Potter. E o maior sentimento que podemos ter ao sair da sala de cinema é a felicidade. Felicidade por assistir um grande filme com conteúdo e construído com muito carinho e apreço. E para nós fãs potterheads de coração, as várias referências nos deixam com um largo sorriso no rosto e é claro com uma mente pilhando de teorias que podem surgir nos próximos filmes, principalmente devido a uma grande revelação mostrada ao final do filme. E que venham os próximos filmes desse novo e tão fantástico retorno ao mundo bruxo que amamos.

Trailer legendado:

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Aventura, Fantasia
Direção: David Yates
Roteiro: J.K. Rowling
Elenco: Eddie Redmayne, Dan Fogler, Katherine Waterston, Alison Sudol, Colin Farrell, Ezra Miller, Samatha Morton, Carmem Ejogo, Jon Voight, Faith Wood-Blagrove, Josh Cowdery, Ronan Raftery, Ron Perlman, Jenn Murray, Kevin Guthrie
Produção: David Heyman, Steve Kloves, J.K. Rowling                                                                             Fotografia: Phillippe Rousselot                                                                                                             Trilha sonora: James Newton Howard                                                                                                     Figurino: Collen Atwood                                                                                                                           Design de produção: Stuart Craig, James Hambidge